
terça-feira, 30 de agosto de 2011
China - Moto Contínuo

domingo, 8 de maio de 2011
Só serve pra dançar

sábado, 1 de janeiro de 2011
Câncer
Bateu a porta com força, mais cedo já tinha arrumado tudo. Ou será que bateu a porta com tudo e mais cedo já tinha arrumado força? O fato é que saiu. Saiu e deixou só um maço de cigarro sobre a mesa, tanta coisa pra se esquecer, livros com marcas nossas, cartas mal acabadas feitas de bilhetes para geladeira, mas só ficaram mesmo os cigarros.
Já fazia tempo aquela minha inquietação, ensaiei mil maneiras de lhe dizer aquilo, em todas elas você estava tão frágil e eu decidida enquanto me olhava no espelho e repetia quase com certeza eu vou ter que te deixar. De tanto que repeti acreditei mais do que o que deveria, de tanto dizer achei que até você já tinha escutado.
Mas faz poucos dias desde aquela manhã que eu realmente disse e você nem reagiu mal, levantou e perguntou se eu estava certa, acho que minha convicção ensaiada funcionou tão bem que você a sentiu pairando no ar e foi aí que não esperou a resposta, aproveitou e saiu, foi até o quarto e eu também saí, fui direto para a escada e lá fiquei algumas horas pensei em ir lá de novo e te dizer novamente, estava incompleta, me faltava uma reação sua.
E naquele dia foi tudo o que aconteceu e mal nos falamos até então, quando hoje cheguei cansada depois de um dia todo na rua, por aí e sem destino, após ter saído de casa sem nem ter calçado os chinelos, entrei a tempo de te ver saindo e batendo a porta, provocando finalmente algum estrondo.
Dei uma olhada em volta e me deparei com o maço aberto sobre a mesa, decidi calibrar o seu cheiro que já era forte dentro da sala, ascendi um cigarro e depois outro e outro, seguidos, descompassados e com os pés sujos timidamente sobre o centro, acho que porque sabia que você censuraria tal ato, acho que porque queria que você voltasse e se esquecesse de tudo e aí reparasse nos meus pés e esse fosse nosso maior problema. Senti um frio estranho que me fez encarar a janela onde a cortina solidária tremia junto comigo.
Trêmula, pensando na quantidade de nicotina que eu já ingeri, me levantei e fechei a janela, fiz mal, porque agora era eu a única que tremia na sala e era sem explicação. A passos lentos fui conferir no armário se você não esqueceu nada, não, talvez só tenha esquecido de ficar e de esquecer tudo o que eu disse. Acendi outro cigarro e fiquei até com raiva por um minuto pela bagunça que você fez entre minhas coisas procurando pelas suas, mas isso é nada diante da bagunça que você fez na minha vida enquanto saía dela. O que eu faria agora com tanto espaço no armário? De certa forma gostava de me amontoar entre seus pertences.
Mas logo encontro um jeito de te apagar de mim, só preciso de mais um tempo, para me orientar e entender que tudo isso é simples falta de hábito, estranhamento. Logo eu te limpo de todas as minhas músicas favoritas e dou a elas o sentido vazio e distante de antes. Preciso queimar tudo, mas toda vez que ascendo o isqueiro não faço mais que produzir cinzas, acho até que estou provocando o efeito contrário e estou te tragando pra dentro de mim cada vez mais. Agora eu tenho todo o espaço que queria, o que vou fazer com ele?
