Já faz tempo que eu queria ler esse livro que me encantara em tudo começando do nome. Mas demorei até comprar, demorei tanto a ponto da edição normal se esgotar e eu tendo que acabar comprando a de bolso mesmo.

A obra de Caetano sempre me instigou muito, desde bem pequena na verdade. É dele o primeiro álbum que tenho recordação de ouvir, minhas primeiras memórias musicais. Na verdade era uma coletânea dessas de série tipo "Perfil", "Novelas", "Milenium", essa se chamava "Minha História" e o nome não poderia ser melhor.
Verdade Tropical é um livro especificamente sobre a Tropicália e sua narrativa traz a visão do Caetano dos anos 90 sobre aquele jovem que organiza o movimento lá em meados de 60. Um Caetano cujas incertezas e a ingenuidade são inimagináveis e não só se desvendam através da delicadeza de personalidade, das memórias da infância como se afirmam cruciais para criação de um movimento tão legítimo e original.
Movimento este que consiste na maior ruptura sociológica na história da música nacional, uma quebra de paradigmas tão grande que acabou atingindo outros pontos como a estrutura da própria política. E aqui eu coloco propositalmente a música antes da política porque eu não sei qual é a opinião da maioria das pessoas, mas antes de ir a fundo na obra de autores como Chico Buarque, Maria Bethânia e o próprio Caetano Veloso - principalmente neste livro - eu imaginava uma politização desses artistas muito maior do que o que realmente era. Um engajamento contra o caos militar que elementos como as prisões e o exílio alimentam, mas que o próprio Verdade Tropical desmistifica.
Se em particular eu já julgava a obra em uma perspectiva muito mais artística, passei então a crer num movimento todo embasado nessa ideia. Uma contra-cultura musical que brincava com a alienação da jovem guarda mas reconhecia o apelo popular de artistas como Roberto Carlos e valorizava isso. Ao passo que questionava justamente o que estava posto como MPB e o que era então a "música de esquerda" na época com Geraldo Vandré, Edu Lobo e etc.

A Tropicália fazia a junção fantástica da vulgaridade de Carmem Miranda com a estranheza psicodélica do rock traduzindo tudo a nível popular e ao mesmo tempo com um refinado requinte intelectual. Era a mistura desse boom criativo que o Brasil exalava na época com o Cinema Novo e os poetas concretistas. É um movimento filho de Terra em Transe com Chega de Saudade.

Caetano e sua cabeleira longa, seu rebolado e sua sexualidade ambígua. A loucura genial de Tom Zé que irradiava até no olhar. A inteligência cativante de Gil capaz de traduzir Hendrix usando uma linguagem Jorge Ben. A ousadia psicodélica dos Mutantes tocando de costas para o público. Toda essa incontestável atraente rebeldia esteve durante esses dias nas minhas mãos e rechada de contextualizações e referências que completam o sentido da obra.
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